A senzala aberta

A derrota contra a Alemanha na Copa do Mundo é uma ferida exposta na identidade nacional. Perder de forma tão categórica naquele que é o esporte mais praticado na nação chega a nos violentar. O que nos atinge de forma tão vergonhosa não são os sete gols alemães, tampouco a taça que não ficará no Brasil. No fundo, no fundo, o problema aqui é que junto com a derrota, caiu um dos poucos e últimos orgulhos nacionais: o futebol brasileiro.

O caldo derramado ferve sobre a identidade nacional e revela a sobra: um país atrasado, corrupto em muitos aspectos, dominado por elites sindicais e empresariais pouco comprometidas com o desenvolvimento nacional. Onde estão os Barões de Mauá de nossos tempos? Onde estão os Santos Dumont? Onde estão os abolicionistas? Os libertadores?
Quem são os líderes desta nação? Que orgulho eles têm de ter a oportunidade de consertar esse país? Sinceramente, não vejo entre esses senhores e senhoras mais do que a vontade de enriquecer e de manter para si o poder que garanta a defesa de seus mesquinhos e particulares interesses.

Se fosse dada ao povo pobre do Brasil a oportunidade de viajar pelas nações mais desenvolvidas do mundo, ele certamente ficaria paralisado, hipnotizado por uma qualidade de vida que chega a ser assustadora para os milhões de brasileiros que pouco têm. Veriam que nesses locais há mais respeito ao cidadão, a corrupção é menor e as oportunidades atingem mais pessoas.

Estamos em um país que se orgulha do futebol, mas que não se incomoda com a pobreza. Um país em que o objetivo final é o enriquecimento das elites, mesmo que custe o sacrifício do trabalhador. E de uma maneira diabólica, a maioria dos que muito têm governam essa nação. E fazem questão de deixar o povo doente nos hospitais, o povo estúpido nas escolas e o povo depauperado dentro das famílias.

Vivemos num país que é uma espécie de senzala aberta. Onde todos nós, sem exceção, teoricamente livres, permanecemos escravos. Essa é a nossa maior ferida.

Porém, permanecem firmes aqueles que, mesmo escravos, possuem o sonho da libertação, da ordem e do progresso. Aqueles que, pouco a pouco, geração após geração, contribuirão para o fim deste império tenebroso que se sustenta por meio da exploração e do sofrimento de seus habitantes.

Thiago Tibúrcio – Brasília, 9 de julho de 2014.

P.S – Dedico este texto ao zagueiro David Luiz que, com poucas palavras, externou sinceramente aquilo que grandes homens desejam: “Eu só queria dar alegria ao meu povo”.

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