Ozanam também era político

O principal fundador dos vicentinos/SSVP (Frederico Ozanam) era também político. Disputou ainda jovem, em 1848, aos 35 anos, uma vaga de deputado na Assembleia Constituinte da França, representando a cidade de Lyon.

Apesar de ter sido inscrito tardiamente na lista de candidatos, obteve 13 mil votos, fez uma campanha bonita, mas infelizmente não foi eleito.

Ele era republicano e inspiro-me nas ideias dele, que permanecem atuais. Ozanam escreveu: “Vejo a República pacífica, protetora de todas as liberdades civis, políticas, religiosas, sem a intervenção do Estado em questões de foro interno. Por fim, quero-a respeitando a liberdade, a indústria e o comércio, todas as instituições que poderiam melhorar e renovar a condição dos operários. Quero menos a organização do trabalho que a dos trabalhadores, por meio de associações voluntárias, seja entre si, seja com os patrões”.

O trecho está na excelente biografia “Ozanam – um sábio entre os pobres, da escritora Madeleine des Rivières”, onde também se encontra um puxão de orelhas de Ozanam nos padres. “Procurem também ocupar-se sempre tanto dos empregados, como dos patrões, tanto dos operários, como dos ricos. Doravante, esta é a única via de salvação para a Igreja da França. É preciso que os padres renunciem à sua pequena paróquia burguesa, rabanho de elite no meio desta imensa população que eles não conhecem. É preciso que se ocupem não só dos indigentes, mas também de toda esta classe pobre que não pede esmola, mas que pode ser atraída por pregações especiais, por associações de Caridade, pela afeição que se lhe dedica e que a toca mais do que se crê”.

Percebe-se que Ozanam, autor de uma doutrina social revolucionária, era contrário a ideia de luta de classes, que, no mesmo ano, seria difundida por Karl Marx. Ozanam percebia a divisão da sociedade e a impossibilidade de um justo equilíbrio caso as estruturas de poder continuassem a separar a população, privilegiando uns em detrimento de outros.

Neste contexto, Ozanam escreve a célebre passagem: “… a questão que divide os homens hoje em dia não é mais uma questão de formas políticas. É uma questão social, de saber quem se bandeará para o espírito de egoísmo ou o de sacrifício. Se a sociedade deve ser uma grande exploração em proveito dos mais fortes ou uma consagração de cada um sobre o bem de todos e sobretudo para a proteção dos mais fracos. Há muitos homens que tem tudo e querem possuir ainda mais. Há muitos outros que não possuem o bastante e querem tomar o necessário se não lhes for dado. Entre essas duas classes de homens prepara-se uma luta. E essa luta ameaça ser terrível. Se de um lado a força do dinheiro, do outro a força do desespero. Entre esses bandos inimigos cumpre que nos lancemos, se não para impedir, ao menos para amortecer o choque. Um único é o meio de salvação: é que, em nome da caridade, os cristãos se interponham nesses dois campos” (Ozanam).

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